Costa do Castelo, Lisboa, em processo de gentrificação

A Costa do Castelo, em plena zona histórica de Lisboa, volta a ser alvo de um projecto arquitectónico controverso, de clara ruptura com a malha urbana envolvente. Depois da discreta "habitação integralmente nova" de cinco pisos, projectada por Ricardo Bak Gordon, encontra-se neste momento em construção, próximo da extremidade nascente da mesma artéria, uma casa unifamiliar que parece reminiscente da Villa Savoye, que Le Corbusier e Pierre Janneret, seu primo, conceberam em Poissy, entre 1928 e 1933.

Mais do que qualquer consideração estética dicotómica, importa questionar a viabilidade de tal empreitada imobiliária num espaço da cidade tão marcado não apenas por um património edificado que se perpetuou pelo tempo, mas também por memórias e vivências ainda visíveis. Seria esta a única solução ideal para aquele terreno? Não poderia ter sido encontrada outra opção que procurasse um equilíbrio entre o "tradicional" e o "moderno"? Qual o propósito de fazer tábua rasa do contexto ao redor e priorizar uma construção cuja volumetria revela o maior descoro em relação ao espaço em que insere?

Deverá igualmente ser referido que esta casa unifamiliar, ao ser construída, pouco ou nada contribuirá para fixar ou manter habitantes no bairro da Mouraria, contribuindo, assim, para incentivar (ainda mais) a transformação pouco sustentável do tecido urbano e social, assente na especulação imobiliária, no que tem vindo a ser apelidado de "gentrificação".

Outro caminho, outra visão de cidade é possível. A arquitectura, enquanto disciplina artística e científica, serve o propósito de tornar habitável um determinado espaço cuja função influencia a identidade de um lugar através da proporção, técnica, geometria e harmonia. Um Lugar que se rege quer pela memória visual e imaterial, quer pela sua envolvente humana, patrimonial e paisagística.

Pedro Osório Graça e Miguel Bernardino