Santa Clara-a-Velha: Uma opção insustentável

10-02-2026

Quando Dona Mor Dias decidiu fundar em Coimbra uma casa de clarissas, quis um local perto do convento de S. Francisco, o guia espiritual de Santa Clara. Infelizmente, a escolha recaiu sobre um terreno que se veio a revelar suscetível às cheias do Mondego. A licença de construção foi-lhe concedida em 1280, mas as obras só avançaram mais tarde, promovidas e financiadas por D. Isabel de Aragão, segundo um projeto de Mestre Domingos Domingues. O mosteiro foi consagrado em 1330, mas, durante três séculos, a vida das monjas foi sobressaltada pelas inundações provocadas pelo Mondego e só já no final do século XVII, depois de sucessivas obras destinadas a fugir às águas do rio, puderam as clarissas finalmente mudar-se para outro local, mais perto do centro do burgo, na outra margem do rio. Eis, a traços largos, a origem de duas notáveis construções que hoje podemos apreciar em Coimbra: Santa Clara-a-Velha e Santa Clara-a-Nova.

A primeira, que motiva esta notícia, foi, na altura, votada ao abandono, assoreada pouco a pouco pelas sucessivas inundações. A cerca foi usada como exploração agrícola e a parte superior da igreja como habitação, palheiro e estábulo, mas o sólido edifício, embora degradado, continuava a despertar a curiosidade dos viajantes.

No século XIX o vetusto mosteiro tinha as cotas mais baixas parcialmente soterradas e inundadas, constituindo, no entanto, uma imponente ruína, que veio a ser classificada como monumento nacional em 1910.

Na última década do século XX, cerca de setecentos anos depois de construído, o edifício e a área do claustro foram objeto de uma campanha arqueológica. Como o nível freático se aproximava frequentemente da cota 18m, ou seja, seis metros acima do piso térreo original., parte da área foi posta a seco através de um sistema de rebaixamento do nível freático, utilizando furos de bombagem.

Exatamente trezentos e vinte anos depois das clarissas abandonarem o local, e de continuado assoreamento do Baixo Mondego, é tomada a decisão de manter o conjunto permanentemente a seco. Para isso, constrói-se uma "cortina de contenção hidráulica", constituída por uma parede moldada no tereno, com mais de 500 m de perímetro, abrangendo a igreja, o claustro grande, e parte da área adjacente. Esta parede enterrada, com uma altura média de 12m e uma espessura de 80cm, foi prolongada em profundidade, a partir da sua base, por uma cortina de injeções de cimento, aumentando a profundidade atingida em mais cerca de 13m. Instalou-se, também, um sistema de poços de bombagem, destinando a remover o caudal remanescente que, por percolação, conseguisse penetrar no recinto através do terreno e da cortina de injeções. Todas estas disposições existem no terreno abaixo da cota 18m, um nível que veio a ser ultrapassado na albufeira de Coimbra, logo nas cheias de 2000/2001, antes da conclusão das obras, causando avultados prejuízos.

O projeto de requalificação do monumento, lançado já em 2004 e adjudicado aos arquitetos Luís Martinho Urbano, Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez, previa o acesso dos visitantes ao nível térreo original da igreja e ao claustro inacabado, e a construção de um edifício novo, destinado a alojar um centro interpretativo e os objetos recolhidos pela campanha arqueológica da década anterior. Em abril de 2009 o empreendimento foi aberto ao público, e, cerca de quatro anos depois, passou, com sucesso, uma primeira prova: as cheias de 2012/2013. Passou, no entanto, porque a Mãe Natureza foi, dessa vez, benévola: o nível da albufeira de Coimbra pouco deve ter ultrapassado a cota 18m e o sistema de bombagem conseguiu manter o recinto a seco. Tal já não aconteceu durante as cheias de 2015/2016 e 2018/2019, em que o nível da albufeira se aproximou da cota 19m. A capacidade de bombagem foi largamente excedida e a água carregada de sedimentos provocou danos em todo o empreendimento, incluindo no centro de interpretativo e no seu valioso acervo. Decorreram, desde então, longos trabalhos de restauro do núcleo museológico e de requalificação das instalações, levando a que estas só reabrissem ao público no verão de 2023. Mas em outubro de 2025 o monumento encerrou novamente, para mais uma empreitada de requalificação do centro interpretativo, desta vez financiada pelo PRR. Com estas obras em curso, surgem as inundações de 2026... 

O conjunto de trabalhos levados a cabo para tentar assegurar a manutenção a seco do perímetro da igreja e do claustro, a que se vêm somando os encargos com as reparações tornadas necessárias pelas sucessivas inundações, os custos da manutenção do sistema de bombagem e a energia por ele consumida, tornam problemática a rendibilização, tanto mais que a receita é, frequentemente, interrompida pelos inevitáveis períodos de encerramento. Por outro lado, convém ter em mente que a rendibilização, em conjunto com a utilização, o aproveitamento e a gestão, constitui apenas uma entre as dez formas de valorização elencadas pela Lei de Bases do Património.

Pergunta-se: não será possível a fruição da parte inferior da igreja e do claustro grande sem a eles o visitante aceder fisicamente? Quem visitasse o local antes das obras de requalificação, mas depois dos detritos e sedimentos terem sido removidos, constatava que, a partir da cota 18m, as estruturas submersas eram perfeitamente visíveis.

Porque não lançar um debate de ideias para um novo plano diretor para o monumento? Talvez seja possível colaborar com a Mãe Natureza, em vez de a contrariar!